'ESTOU APENAS ENTERRANDO AS IMPUREZAS E TOXINAS DA MINHA VIDA E DEIXANDO BROTAR UMA BELA E FRUTÍFERA ÁRVORE, E QUE SEJA DOCE' [Caio F]

segunda-feira, 21 de junho de 2010

Uma dose a menos...



Então ela não acordou mais uma vez...Estava em frangalhos há dias...mas ninguém sabia o estado real daquela mulher. Ela disfarçava não só a tristeza como a fraqueza daquele momento, consolando os aflitos...Ela precisava tanto de ajuda, mas não gritava. Ela confiava,acreditava...mas estava sem ímpeto, sem a força necessária.
Não sabia dizer direito o que sentia e como sentia...Pois novamente,passava por um sentimento novo...inexplicável...
Estava sorrindo com a boca, ultimamente...e isso não a fazia bela...pois a beleza dela estava justamente em rir com os olhos, como é o natural...aqueles olhos marcados estavam encharcados ainda das últimas lágrimas.
O que também ninguém sabia era sobre as quantidades de álcool e cigarro que ela estava ingerindo..era proporcional ao número de vezes em que mentiu que bem estava.
Escrevo por ela...para libertá-la...para amá-la....como talvez ela nunca tenha sido amada...nem por seu pai.
Uma dose a menos de tristeza...
Uma dose a menos de vinho cretino...
Uma dose a menos de cigarro...
Uma dose a menos de desprezo...
É tudo o que ela precisa.
E eu dou...pq eu sei o quanto ela pode ir, o quanto ela pode fazer. E o quanto ela precisa de mim.
Pois sou eu que a levantarei desse abismo,de vez.
Que não a deixarei mais não acordar por conta de gente non válida.
Tudo o que ela precisava era dormir por um dia todo. Em colo seguro.
Porque de amigos que querem levá-la pra cama, ela está cheia. Cheia não...farta.
Farta da superficialidade , farta do querer latente de um amor verdadeiro, farta da falta de atitude das pessoas.
Traiu, foi traída,foi amante, foi abandonada, foi usada, foi amada, foi Maysa, foi Dalva de Oliveira, foi Anita Garibaldi, foi infinitamente várias numa só mulher...um só coração.
Relaxa,honey
Bebe,pra esquecer.
Consegue.
Mas quando lembra...ah,quando lembra,vem inconformidade...
E esse coração agora quer alento.
Esse medo de amar e não ser amada, essa sensação de abandono inesperado, eu vou ajudá-la a curar.
O dia é hoje.
Nem mais um segundo.
Nem mais um milésimo de segundo.
porque dela sempre sai uma força inesperada qualquer...
dela sempre sai um grito
de toda mulher forte,sempre sai espasmos de alegria e de tristeza
de toda mulher forte,sempre sai um vômito de tempestade com tsunami


Então, de repente não mais que de repente:

Pois logo a mim, tão cheia de garras e sonhos, coubera arrancar de seu coração a flecha farpada. De chofre explicava-se para que eu nascera com mão dura, e para que eu nascera sem nojo da dor. Para que te servem essas unhas longas? Para te arranhar de morte e para arrancar os teus espinhos mortais, responde o lobo do homem. Para que te serve essa cruel boca de fome? Para te morder e para soprar a fim de que eu não te doa demais, meu amor, já que tenho que te doer, eu sou o lobo inevitável pois a vida me foi dada. Para que te servem essas mãos que ardem e prendem? Para ficarmos de mãos dadas, pois preciso tanto, tanto, tanto - uivaram os lobos e olharam intimidados as próprias garras antes de se aconchegarem um no outro para amar e dormir.

(Trecho do conto 'Os desastres de Sofia', in "Felicidade Clandestina)
Clarice Lispector


Ela partiu os cigarros ao meio e jogou na pia a última gota de vinho.

E decidiu se fazer feliz por completo.
Com uma dose a menos de tempestade.

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